desde o primeiro contato - mesmo que vago - existia a certeza de uma grandiosidade de intenções de ambas as partes. o que por si só já era um bom começo. tão intenso, quanto embaraçoso - apenas um esbarrão, uma palavra, dois olhares e dois sorrisos. daí o convite para um passeio, um café, uma cerveja, um beijo, algo mais e finalmente o tão esperado "mora comigo?".deveras assustadora a rapidez com que havia se desenrolado a história até aquele ponto, mas de fato não era uma má idéia. pensou no convite, cogitou a possibilidade... de primeira achou arriscado, mas o que na vida não o é? aceitou.na semana seguinte lá estava ela dormindo na cama dele - que também era dela agora. acordava de calcinha e camiseta, dava-lhe um beijo, então levantava para escovar os dentes e nada de colocar uma roupa "descente", afinal só estavam os dois em casa - ninguém mais. se orgulhava em ver somente duas escovas de dente na pia do banheiro, ficava mais feliz ainda de estar ali não temporariamente, as definitivamente. se olhava no espelho e via a escova entre os dentes, que não era a dele, como sempre usava quando o visitava casualmente e acabava por ficando lá, era a escova dela.interessante lhe servir café, fazer seu suco, seu almoço, servir sua janta. interessante mais ainda era beijá-lo e desejá-lo um ''bom dia'', com um sorriso bem largo, apoiada do lado de fora da porta do apartamento, com sua caneca colorida e seu cigarro na mão. era engraçado como tudo tinha acontecido tão rápido e perfeitamente. mal podia acreditar, mas acreditava.como coisas de casal, começaram as diferenças, as maquiagens espalhadas, as calcinhas penduradas, os ralos entupidos de cabelo colorido. assim como vieram as toalhas molhadas na cama, os sapatos jogados pela casa, as roupas sujas fora do lugar, a disputa pelo programa de televisão e pelo último pedaço do doce delicioso. vieram também as brigas, como é de se esperar.ela já não acordava mais de calcinha e camiseta - acordava de pijama mesmo. não lhe beijava antes de escovar os dentes, já não aguentava olhar aquelas duas ecovas juntas - a sua tão nova e a dele tão a mesma de antes. reclamava ao fazer café, reclamava ao ouvir o pedido do suco. almoço e janta eram nescessários e se não fosse não faria. desejava bom dia de onde estivesse, não sorria e não segurava mais a caneca colorida - havia quebrado, comprou uma comum mesmo.se atentou para a situação deplorável antes dele. nada poderia dar certo naquelas condições, ainda mais do jeito ligeiro que tudo tinha acontecido. como pôde acreditar que se realizaria morando e sendo sustentada por ele? fumou um cigarro com café, tomou um banho, se arrumou e saiu.comprou outro maço, parou para tomar mais um café. foi ficando tarde, mas ela não se importava - deixou o celular em casa. mais hora, menos hora, quem se importa? andando até a casa de uma amiga que não visitava há muito tempo, indo sem avisar, esbarrou em um homem bonito que sem querer derrubou seu cigarro. se olharam, pediram desculpas um ao outro, sorriram. ele o chamou para tomar um café, ela aceitou uma cerveja, depois aceitou um beijo, logo aceitou algo mais.no dia seguinte apareceu em casa para pegar sua escova e sua caneca - aquela comum, mesmo. explicou que havia conhecido alguém, ele era legal e ia fazê-la feliz. o deixou apoiado do lado de fora da porta, escorregando até o chão - quem disse que homens não choram?seguiu o corredor, desceu pelo elevador que ela odiava, adeus para o porteiro.na semana seguinte lá estava ela, acordando na cama do outro - que agora era dos dois. somente de calcinha e camiseta, se julgando feliz, foi escovar os dentes com sua escova nova, diferente da dele - toda esgarçada. sabia que cansaria da calcinha, da camiseta, da cama, do café, do suco, do almoço, da janta, do beijo, do sorriso, da porta, da caneca - que já era outra, do cigarro e finalmente do babaca que todo dia ia trabalhar incansavelmente.